Estes ensaios são reflexões sobre a minha prática artística

Se houver interesse em traduzir para o inglês ou outra língua, favor enviar um email para agdesenho@gmail.com

Descrever o meu corpo é mentir, porque no momento que o descrevo ele já não é mais aquilo.

Já olhei para ele com carinho, ódio, pena, raiva, amor.

Há dias que ele é o meu amigo, inimigo, guardador, transporte, conforto, espinho.

Às vezes o vejo como um irmão siamês, tem vontade e personalidade própria.

Ele me pertence e eu pertenço a ele. Eu posso me desligar, mas ele está sempre ligado. E quando ele desligar, não serei mais eu.

Tenho medo de cair. Achava que era medo de magoá-lo, mas outro dia descobri que na minha infância usei uma bota a noite para imobilizar a minha anca. Isso ficou na memória do meu corpo. E agora tenho que lavar esta memória com muita água e aprender a cair sem medo.

Faz uma semana que penso sobre sentir o corpo inteiro. Quando ando, como, durmo, penso, danço etc. Sentir as pontas dos pés até o fio de cabelo no mesmo instante. Ser única. Isso tem um ar de integridade. Mas é muito difícil, eu me distraio e logo já me esqueço deste todo.

Ele sempre me desafia. Mas isso pode ser da minha cabeça, porque ele pode estar ali quietinho e é eu que vou lá cutucar "bora, sai dessa pasmaceira".

As vezes ele me diz para parar, e agora eu respeito.

Estou quase nos 50 e me sinto ansiosa de usar o meu corpo enquanto ele aguenta. Mas esse "usar" está cada dia mais generoso e cuidadoso.

Desejo um entendimento do meu corpo com a minha consciência. Mas tem muitas coisas que eu não sei o que se passa. É uma conversa onde não se entende muito bem a língua. Ele fala, e eu pergunto "o que, o que?"; depois eu digo uma coisa e ele nem me responde.

Acho que paciência é a única alternativa.





Ao ler The Carrier Bag Theory of Fiction da Ursula K. Le Guin, me lembrei desta pintura rupestre em Carnaúba dos Dantas no Rio Grande do Norte - Brasil. E sobre estas pinturas, um arqueólogo diz que é difícil imaginar o contexto daquela época para interpretar as imagens. Mas podemos identificar as figuras ali desenhadas como sacolas, animais, figuras humanas e lanças.

No texto da escritora é mais fácil saber o contexto – ela acha necessário sublinhar que provavelmente o primeiro utensílio humano tenha sido uma sacola ao invés de um arma em formato de um lança ou osso. Ursula ressalta ainda que devemos ter mais atenção sobre como as histórias são construídas numa sociedade onde há excesso de informação e a ficção pode tornar-se teoria.

Sobre este assunto, me lembrei da aula de história da faculdade de moda que cursei, onde diziam que a primeira indumentária foi um colar, um adorno. Parece bem conveniente para uma sociedade de consumo ressaltar este pormenor. Mas se pensarmos em povos habitando um lugar frio, o mais provável é que a primeira indumentária tenha sido uma segunda pele para se proteger.

Neste contexto em que vivo, pego boleia na sacola da Ursula para sinalizar que a vida pode ser muito mais do que teoria e ficção.

Mas antes me pergunto, por que nós temos que pensar ou achar importante: o que foi o primeiro, qual é o principal, o mais antigo, o mais inteligente? Aqui parece que nós damos importância ao poder e ao sucesso, ao único e ao fantástico.

Ao invés de darmos atenção a estes tópicos, por que não pensamos no que é vital?

Não haveria somente um elemento. Seriam no mínimo 2 elementos e com o fluxo e movimento isso se multiplicaria. Não é necessário haver o masculino e o feminino para criar vida. Pode ser a pipa e o vento ou o peixe e a água. Podemos pensar por exemplo o funcionamento de vários órgãos e fluxos se comunicando entre si e isso que dá vida ao ser. Não existe o principal ou o primeiro, é necessário um conjunto para ser algo.

Para sobreviver precisamos aprender e isso pode ser a partir do corpo. O primeiro sabor que sentimos após nascermos é o leite, um líquido quase doce e depois sentimos o salgado das nossas lágrimas. Aprendemos então que há diferenças neste mundo a partir do nosso próprio corpo.

Antes de haver uma extensão, já temos ferramentas acopladas no corpo, como os dentes, os dedos, os olhos, a pele. Mas também posso olhar para o outro e vejo uma barriga grande, uma pessoa a carregar uma vida, esta barriga é uma bolsa.

Então não preciso mais pensar no único e no principal, mas sim no que é vital. Um emaranhado de utensílios, órgãos, fluidos que nos faz estar vivos.

Paro e observo melhor a minha pele, ela pode ser uma embalagem opaca com dobras e marcas, não consigo ver do outro lado. Mas sinto que há alguma coisa por de trás da pele, sinto um pulsar e um calor. Somos um saco que carrega ossos, órgãos, músculos e fluidos. Este saco tem 5 sentidos e estes percebem o que está fora do saco e se comunicam com o nosso cérebro que agora tem consciência que não estamos sozinhos e que é vital haver o outro e outros.

sobre o texto da Ursula

https://www.deveron-projects.com/site_media/uploads/leguin.pdf

artigo sobre o texto

https://www.ufrgs.br/bibpsico/2018/02/ursula-k-le-guin-e-a-ficcao-como-bolsa/