Opacidade


Ao ler The Carrier Bag Theory of Fiction da Ursula K. Le Guin, me lembrei desta pintura rupestre em Carnaúba dos Dantas no Rio Grande do Norte - Brasil. E sobre estas pinturas, um arqueólogo diz que é difícil imaginar o contexto daquela época para interpretar as imagens. Mas podemos identificar as figuras ali desenhadas como sacolas, animais, figuras humanas e lanças.

No texto da escritora é mais fácil saber o contexto – ela acha necessário sublinhar que provavelmente o primeiro utensílio humano tenha sido uma sacola ao invés de um arma em formato de um lança ou osso. Ursula ressalta ainda que devemos ter mais atenção sobre como as histórias são construídas numa sociedade onde há excesso de informação e a ficção pode tornar-se teoria.

Sobre este assunto, me lembrei da aula de história da faculdade de moda que cursei, onde diziam que a primeira indumentária foi um colar, um adorno. Parece bem conveniente para uma sociedade de consumo ressaltar este pormenor. Mas se pensarmos em povos habitando um lugar frio, o mais provável é que a primeira indumentária tenha sido uma segunda pele para se proteger.

Neste contexto em que vivo, pego boleia na sacola da Ursula para sinalizar que a vida pode ser muito mais do que teoria e ficção.

Mas antes me pergunto, por que nós temos que pensar ou achar importante: o que foi o primeiro, qual é o principal, o mais antigo, o mais inteligente? Aqui parece que nós damos importância ao poder e ao sucesso, ao único e ao fantástico.

Ao invés de darmos atenção a estes tópicos, por que não pensamos no que é vital?

Não haveria somente um elemento. Seriam no mínimo 2 elementos e com o fluxo e movimento isso se multiplicaria. Não é necessário haver o masculino e o feminino para criar vida. Pode ser a pipa e o vento ou o peixe e a água. Podemos pensar por exemplo o funcionamento de vários órgãos e fluxos se comunicando entre si e isso que dá vida ao ser. Não existe o principal ou o primeiro, é necessário um conjunto para ser algo.

Para sobreviver precisamos aprender e isso pode ser a partir do corpo. O primeiro sabor que sentimos após nascermos é o leite, um líquido quase doce e depois sentimos o salgado das nossas lágrimas. Aprendemos então que há diferenças neste mundo a partir do nosso próprio corpo.

Antes de haver uma extensão, já temos ferramentas acopladas no corpo, como os dentes, os dedos, os olhos, a pele. Mas também posso olhar para o outro e vejo uma barriga grande, uma pessoa a carregar uma vida, esta barriga é uma bolsa.

Então não preciso mais pensar no único e no principal, mas sim no que é vital. Um emaranhado de utensílios, órgãos, fluidos que nos faz estar vivos.

Paro e observo melhor a minha pele, ela pode ser uma embalagem opaca com dobras e marcas, não consigo ver do outro lado. Mas sinto que há alguma coisa por de trás da pele, sinto um pulsar e um calor. Somos um saco que carrega ossos, órgãos, músculos e fluidos. Este saco tem 5 sentidos e estes percebem o que está fora do saco e se comunicam com o nosso cérebro que agora tem consciência que não estamos sozinhos e que é vital haver o outro e outros.

sobre o texto da Ursula

https://www.deveron-projects.com/site_media/uploads/leguin.pdf

artigo sobre o texto

https://www.ufrgs.br/bibpsico/2018/02/ursula-k-le-guin-e-a-ficcao-como-bolsa/

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