Corpo

Descrever o meu corpo é mentir, porque no momento que o descrevo ele já não é mais aquilo.

Já olhei para ele com carinho, ódio, pena, raiva, amor.

Há dias que ele é o meu amigo, inimigo, guardador, transporte, conforto, espinho.

Às vezes o vejo como um irmão siamês, tem vontade e personalidade própria.

Ele me pertence e eu pertenço a ele. Eu posso me desligar, mas ele está sempre ligado. E quando ele desligar, não serei mais eu.

Tenho medo de cair. Achava que era medo de magoá-lo, mas outro dia descobri que na minha infância usei uma bota a noite para imobilizar a minha anca. Isso ficou na memória do meu corpo. E agora tenho que lavar esta memória com muita água e aprender a cair sem medo.

Faz uma semana que penso sobre sentir o corpo inteiro. Quando ando, como, durmo, penso, danço etc. Sentir as pontas dos pés até o fio de cabelo no mesmo instante. Ser única. Isso tem um ar de integridade. Mas é muito difícil, eu me distraio e logo já me esqueço deste todo.

Ele sempre me desafia. Mas isso pode ser da minha cabeça, porque ele pode estar ali quietinho e é eu que vou lá cutucar "bora, sai dessa pasmaceira".

As vezes ele me diz para parar, e agora eu respeito.

Estou quase nos 50 e me sinto ansiosa de usar o meu corpo enquanto ele aguenta. Mas esse "usar" está cada dia mais generoso e cuidadoso.

Desejo um entendimento do meu corpo com a minha consciência. Mas tem muitas coisas que eu não sei o que se passa. É uma conversa onde não se entende muito bem a língua. Ele fala, e eu pergunto "o que, o que?"; depois eu digo uma coisa e ele nem me responde.

Acho que paciência é a única alternativa.




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