10/jul/2017

"Reflexão sobre a prática de Aikido" por Nuno Seabra Lopes

É comum, ao iniciar-se a prática de Aikido, lidarmos com a frustração de
não conseguirmos executar os mais básicos movimentos, e sermos
confrontados com constantes barreiras que ao princípio julgamos
unicamente físicas e técnicas mas que não o são, sendo a sua compreensão
uma etapa importante no desenvolvimento da nossa prática.
É também comum pensarmos de forma linear, recordando-nos que, quando uma
criança nasce, traz em si todo o potencial humano e que só requer o seu
desenvolvimento/ crescimento para que a mesma se possa expressar, como
se a nossa prática seguisse o mesmo princípio. Se, em teoria e nessa
etapa da vida, até poderá ser essa uma afirmação correcta, a verdade é
que nem é verdadeira, nem é aplicável à prática de Aikido ou qualquer
outra arte.
É-nos fácil entender que ao crescer os nossos genes e ambiente acabam
por definir muitas das nossas características físicas, dando-nos
“corpos” diferentes; e é também fácil perceber que o meio ambiente fá-lo
ainda mais mas, se se diz comummente que utilizamos somente 10% do nosso
cérebro, devemos perceber também que, na verdade, deveremos utilizar
provavelmente a mesma percentagem do nosso corpo.

 

O potencial de movimento do corpo humano é assombroso mas todos nós
vivemos diariamente em rotinas almofadadas que nos impelem, por um lado,
à ultra especialização de pequenas partes do nosso corpo (ex.
coordenação olho/mão, destreza de dedos), tornando-nos mestres a
escrever mensagens no telemóvel, a jogar computador, a equilibrar
líquido de copos, a comer de garfo e faca, ou, em alguns casos, a nadar,
correr, chutar bolas ou andar com eficiência, mas também nos impele ao
definhamento de todos os outros movimentos, sendo que a generalidade das
pessoas mal sabe andar ou correr correctamente, não consegue coordenar
minimamente parte significativa dos músculos do corpo e é incapaz de
executar alguns movimentos simples e a generalizada dos movimentos
compostos fora do que habitualmente faz. Como diz o Jean-Marc Duclos,
somos cadáveres ambulantes.

 

Mais do que a falta de desenvolvimento físico, existe também toda uma
componente emocional que também se encontra na mesma situação. Tal como
no espaço físico do corpo acumulamos mazelas do passado, também as
acumulamos na alma com mais vulgaridade, e ainda para mais, não estamos
confrontados diariamente com elas (como estaremos a uma escolióse, ou
uma perna mais curta) e habituamo-nos estruturar em rotina todas as
nossas emoções procurando caminhos confortáveis para lidarmos com o
nosso dia-a-dia e também com as raras excepções sociais fora do padrão
(namoro ou divórcio, morte, etc.). Quando saímos desse registo,
resta-nos as defesas da linguagem e da sociedade, a perda de controlo, o
cair em comportamentos prejudiciais ou a fuga. Em vez de confrontarmos
os nossos medos, as nossas frustrações, as nossas raivas, a nossa
ansiedade, ocultamo-las de todos e até nós, recorrendo à linguagem e à
racionalização, integrando-nos nos padrões de comportamento sociais e
outras ferramente de forma a contornar essa exposição. É, ainda mais do
que o nosso definhamento físico, uma barreira complicada de ultrapassar,
que obriga à identificação e a compreensão dos motivos, ou seja, obriga
a que para a ultrapassar tenhamos de nos confrontar com os nossos problemas.

 

Acontece que na prática de Aikido as práticas sociais e a linguagem não
estão presentes e, frequentemente, temos de lidar com todos os nossos
fantasmas quando nos vemos perante uma dificuldade que causa medo,
ansiedade, vergonha, insegurança ou frustração. Por mais que queiramos
ultrapassar essa “dificuldade física e técnica” não conseguimos, porque
a mesma não é física ou técnica. Se não nos apercebermos disso,
estaremos eternamente condenados a não desenvolver a nossa prática por
não percebermos o que se encontra errado, levando até ao reforço desses
mesmos complexos emocionais e levando à nossa desistência ou fuga.

Não é à toa que o Aikido é uma Arte, e tal como todas as artes centra-se
no artista e não em quem o assiste e aplaude. Como em todas as artes
centra-se no processo de identificação do artista consigo e com mundo em
si, quer sensorialmente (visão, audição, etc.), quer emocionalmente,
sendo criada uma mundividência (uma nova perspectiva sobre o que o
artista percepciona). O importante das artes não é o colecionar exterior
de formas distintas de ver o mundo se as mesmas não forem aproveitadas
para nos fazer crescer e ver o mundo um pouco mais dessa forma. E o
Aikido é, em si, uma arte invisível, da vida mais do que da morte, onde
o artista é o seu público e onde cada um de nós se vai descobrindo e
percebendo as diferentes coisas que o rodeiam, e como as mesmas se podem
harmonizar nele. E esse processo artístico de descoberta é unicamente a
prática, cujo objectivo não é vencer o outro, a idade ou a vida, mas o
assombro de poder usar esta ferramenta para ampliar do mundo que cada um
de nós tem em si.
 

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04/jul/2017

O tempo podia ser elástico. E no Parque de Diversões este tempo não precisava ter fim. Na hora de ir embora para casa eu sonhava em morar num Parque de Diversões. Assim poderia acordar no outro dia e brincar mais um pouco e mais um pouco e mais um pouco.
Quando descobri que era possível ser uma Uchi Deshi num Dojo em Tel Aviv, pensei que o céu poderia existir na terra :)
Uchi Deshi é como um estágio onde o aluno dorme, come, trabalha, medita e pratica Aikido dentro de um Dojo.
Estarei dois meses não só mergulhada no Aikido mas também desenhando. Estes são alguns cadernos (veja o link) que serão desenhados além do Instagram https://www.instagram.com/andrea_ebert_art/  que terão 62 desenhos e com o nome "Walking on the moon".

 

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10/jun/2017

Jan Nevelius - Finding your own Aikido. "Aikido At The Leading Edge"

watching the video.

"The problem can not be solve on the level it has been created. You need to step up the level. And what is this solution on one level becomes the problem on the next level. When we study Aikido we learn the solution at one level but if you want to progress and you if you want to be honest - you find this level of solution it not work in the next level and then is actually a problem. So when we learn in basic techniques doesn’t really work in advanced techniques if we are not able lift them up to higher level and this we have to do all the time."

 

"When you look at something for a long time you become blind.

And you move out of Aikido - I want to have a fresh eyes - With these fresh eyes I can look back to Aikido and see things that I didn’t see before."

 

This is happens to me all the time when I'm doing my personal projects too.

 

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9/jun/2017

Considero que as técnicas e a filosofia do Aikido uma metáfora da humanidade. E isso me deixa mais à vontade para abordar os mesmo temas no Clube do desenho. Ontem no Dojo foi falado em observar a postura e o alinhamento da coluna. Não só a própria postura mas a do parceiro. Quando o oponente se focava muito no braço e na técnica não acontecia o movimento. Mas depois chamei a atenção para olhar para a minha coluna e o parceiro ficou impressionado com a diferença. Também senti isso. No shironage existe uma hora que não conseguimos ver muito bem a outra pessoa e se não sentirmos a outra pessoa o movimento não acontece.

Então hoje os alunos do clube vão passar o dedo nas costas do outro para sentir a coluna. Depois cada um vai ser um modelo vivo e vão fazer posturas diferentes. Para visualizar o desenho da coluna. Para isso virar um desenho vão usar plasticina para representar a estrutura da coluna e a partir desta estrutura vão criar um desenho. Veja o resultado.

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26/may/2017

No cerne de quase todas as interpretações filosóficas do AIKIDO, podemos identificar

duas correntes fundamentais:

- O compromisso de resolver conflitos pacificamente, sempre que possível

- O compromisso da auto-melhoria através do treino do AIKIDO.

 

Origem: Associação Portuguesa de Aikidô e Disciplinas Associadas (APADA)

 

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Tudo isso parece irreal ou intangível para quem não pratica Aikido. Lendo este texto abaixo posso comparar - o Aikido a um instrumento para poder enxergar as ondas eletromagnéticas invisíveis.

 

Estas ondas eletromagnéticas são o nosso corpo. Corpo não é somente a massa, mas o todo. E como O-Sensei diz “Eu sou o universo”. Este universo evolui. E é o processo da evolução que me interessa.

 

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A origem dos átomos

“O que chamamos de luz, a que podemos enxergar com nossos olhos, é apenas um tipo de onda ou radiação eletromagnética. Existe um vasto espectro de ondas eletromagnéticas, que se estende desde as ondas de rádio, com comprimentos de onda bem longos, até os raios gama, com comprimentos de onda bem curtos. A luz visível é uma pequena janela desse espectro, consistindo em ondas com comprimentos de onda da ordem de meio milionésimo de metro.

Estamos cercados por ondas eletromagnéticas invisíveis. Ainda bem, pois se pudéssemos enxergar todas as ondas de rádio, usadas pelas estações de rádio e pelos telefones celulares, as micro-ondas para as telecomunicações por satélite, ou a radiação infravermelha emanando de objetos quentes e de pessoas e animais a nossa volta, a vida seria bastante caótica. Os olhos humanos (e os de praticamente todas as espécies terrestres) evoluíram para captar apenas a informação que nossos cérebros usam para nos orientar e, assim, aumentar nossas chances de sobrevivência. Portanto, nossos olhos se adaptaram ao tipo dominante de radiação em nosso habitat. Muito da realidade permanece invisível aos nossos olhos, ou por que está fora do espectro visível, ou porque sua fonte está muito longe ou é muito fraca. Para vermos a Natureza em toda a sua glória, precisamos de instrumentos que ampliem a nossa percepção, de modo que possamos "ver" o que os nossos olhos não veem. A astronomia moderna, por exemplo, usa telescópios para "visualizar" objetos celestes que emitem todos os tipos de radiação eletromagnética, do rádio ao infravermelho e do ultravioleta até os raios X e os raios gama. No outro extremo, cientistas podem "ver" o mundo invisível do muito pequeno, usando microscópios e aceleradores de partículas para investigar vários tipos de estruturas minúsculas, de micróbios e moléculas até o interior do núcleo atômico.

“Voltando ao livro de Weinberg, seu foco era a descoberta mais importante da cosmologia moderna, que o Universo como um todo está banhado em radiação de micro-ondas, com comprimentos de onda em torno de dois milímetros. Ironicamente, o "éter", se considerado como o meio que permeia todo o espaço, é a própria luz! Se não a luz visível, ao menos uma de suas primas com comprimentos de onda além do visível. Essa radiação é um fóssil da infância cósmica, uma época em que o cosmo era tão quente e denso que não existia qualquer estrutura material que nos é familiar: não existiam galáxias, estrelas, planetas, nem mesmo moléculas. A lista de ingredientes da sopa cósmica era bem simples: a radiação eletromagnética.

 

Nas décadas de 1960 e 1970, aprendemos que o Universo, tal como nós, também tem uma história: "nasceu" e vem crescendo desde então, evoluindo de sua infância quente e densa até o que é hoje, uma vastidão vazia pontuada aqui e ali por galáxias. A história cósmica descreve uma complexificação crescente da matéria, que teve seu início numa "sopa" composta dos constituintes mais elementares da matéria, as chamadas partículas elementares.

Aos poucos, estas partículas foram se combinando, formando estruturas cada vez mais organizadas: núcleos atômicos, átomos, moléculas e, eventualmente, estrelas, planetas, plantas, animais e pessoas. A reconstrução detalhada dessa história, de como a matéria e o cosmo evoluíram do simples ao complexo, é o tema central da cosmologia.”

 

Origem: Criação Imperfeita - Marcelo Gleiser

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07/april/2017

"24 horas"

O meu trabalho pessoal, como eu levo a vida e o que eu busco é muito parecido com o Aikido e o Systema.

Mas antes de falar sobre isso tenho que fazer um parênteses. “Achei que era importante estudar mais a fundo o Aikido e o Systema para entender a dinâmica, a história e os objetivos. E relacionar com o que faço nos meus projetos pessoais. Mas esta verbalização destes sentidos e impressões pode ser prejudicial porque estarei cristalizando um processo que para mim está sendo intuitivo.”

Por tanto o que eu quero e já estou fazendo é relacionar palavras e imagens destas três atividades que eu faço que são vitais para mim - os projetos pessoais, o Aikido e o Systema. Não como um trabalho mas sim como um mapeamento destas impressões.

Segue a lista de palavras que é usada nas três atividades que eu trabalho.

Ocupar o espaço

Extensão

Tensão x relaxamento

O uso da movimentação

Disciplina

Não fixar num ponto

Uso da visão periférica

Abertura de espaço dentro do próprio espaço

O outro

Transformação interna do movimento a partir do movimento do outro

O não linear

Fluidez

O jogo x não competitivo

Uso de pressão para ultrapassar obstáculos

Desenvolvimento constante

O desafio de quebrar limites

Aparentemente não ser útil

Não usar força

Respiração

O simples

A intenção

 

Ao dizer:

“Quando estou desenhando, filmando, fazendo instalações ou seja, trabalhando em projetos artísticos, tenho a vontade de fazer tudo isso 24 horas por dia. Para o resto da minha vida. Mesmo quando durmo os projetos estão a ser fabricados em sonhos.”

 

Me parece que isso acontece quando estou acordada, praticando o Aikido e o Systema é uma continuação do meu processo artístico. Um prova disso é que eu também sonho que estou no dojo.

A oficina na Biblioteca é uma via que sai destas destas 3 vertentes.

Por tanto cada dia que passa este processo ocupa as minhas 24 horas diárias.